O meia Lucas Lima é um dos mais valorizados jogadores do
elenco do Santos. Mesmo assim, é possível que ele deixe a Vila Belmiro no fim
do ano, quando termina seu contrato, sem render um único centavo ao cofre
alvinegro. Pior: o camisa 10 pode gerar uma dívida de cerca de R$ 8 milhões a
um clube que sofre com problemas financeiros sistematicamente.
O contrato entre o Santos e a Doyen,
que detém 80% dos direitos econômicos do jogador, prevê uma série de garantias
ao fundo de investimentos, que não só recupera o valor original da compra (R$
5,5 milhões), como lucra com juros compostos de 10% ao ano.
Os R$ 8 milhões são uma estimativa
desta dívida a partir de 15 de novembro de 2017, o terceiro aniversário do acordo
assinado pelo ex-presidente Odílio Rodrigues. A Doyen, porém, já pode executar
essa cobrança a qualquer momento.
Uma das cláusulas impõe ao Santos a obrigação de comprar
os direitos da Doyen, caso seja a vontade do fundo, se Lucas Lima não tiver
sido vendido até 31 de dezembro de 2016. A empresa, porém, ainda não exerceu
esse direito.
O acordo que envolve Lucas Lima faz
parte da disputa jurídica que se tornou a relação entre o Santos e a Doyen. A
empresa acionou o clube para fazer valer os contratos milionários assinados por
Odílio e considerados inválidos pelo atual mandatário alvinegro, Modesto Roma
Júnior. O maior deles é o do atacanteLeandro Damião, uma cobrança de
18 milhões de euros.
Há disputas também pelos pagamentos
de direitos dos atacantes Geuvânio e Gabriel, vendidos ao Tianjin Quanjian, da
China, e à Inter de Milão, respectivamente. O dinheiro dessas negociações está
bloqueado pela Justiça.
Socorro financeiro
Lucas Lima foi
contratado pelo Santos no final de 2013. O clube se comprometeu a comprar 40%
dos direitos econômicos do Internacional por R$ 3 milhões e 40% dos direitos
que pertenciam ao empresário Edson Khodor por R$ 2,5 milhões. Os gaúchos e o
agente permaneceram com fatias de 10% cada.
Em crise, o Santos não conseguiu
pagar o Inter e pediu socorro à Doyen, que repassou os R$ 3 milhões ao clube do
Sul. O pagamento a Khodor, previsto para ser quitado apenas em outubro de 2014,
também atrasou. Mais uma vez sem caixa, o Santos solicitou que o fundo pagasse
os R$ 2,5 milhões ao empresário.
Um mês depois, o Santos cedeu os 80%
dos direitos econômicos de Lucas Lima à Doyen e ficou sem nada – só voltaria a
ser dono de uma fatia do meia no começo de 2015 ao comprar os 10% que ainda
estavam com o Internacional.
É nesse contrato que a Doyen se
protege de qualquer prejuízo. Nele, inclui a Taxa de Participação Mínima do
Fundo e Taxa de Opção de Venda, ambas definidas como os R$ 5,5 milhões
investidos, acrescidos de juros compostos de 10% ao ano.
A primeira deve ser paga pelo clube
caso o atleta se torne um free agent, ou seja, sem vínculo com o Santos, como,
por exemplo, ao término do contrato. A segunda é o direito do fundo de obrigar
o clube a comprar os direitos que lhe pertencem a partir de 31 de dezembro de
2016.
Mesmo a possibilidade de renovação de Lucas Lima com o
Santos, algo considerado pouco provável por pessoas próximas ao atleta, pode
fazer com a Doyen receba a Taxa de Participação Mínima. Nesse caso, cabe à
empresa, mais uma vez, decidir ser quer o dinheiro ou a manutenção dos direitos
econômicos.
Na Justiça, o Santos tenta invalidar os contratos assinados por Odílio.
Alega que eles são, na verdade, empréstimo com juros abusivos. E que as
garantias deixam isso claro: fosse uma partilha de direitos econômicos, todos
perderiam ao fim do contrato – o que, no caso, acontece apenas ao Santos e a
Edson Khodor. O clube também aponta que os acordos desrespeitam o estatuto do
clube por terem sido firmados nos últimos três meses de gestão do
ex-presidente.
A Doyen afirma que o estatuto veta
apenas a transferência de direitos federativos de atletas, mas não os direitos
econômicos. Além disso, diz que atos da administração de Modesto ratificam os
acordos anteriores.
Um deles é um empréstimo de 600 mil
euros, assinado por Modesto em janeiro de 2016, feito pela Doyen ao Santos para
o pagamento do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) do atacante
Leandro Damião, que, à época, foi à Justiça do Trabalho para rescindir contrato
com o clube por atrasos salariais.
Esse empréstimo é vinculado ao
contrato de Lucas Lima. Nele, o Santos abria mão da chamada taxa
de vitrine, 20% do lucro da Doyen numa futura venda do meia, caso não
devolvesse os 600 mil euros ao fundo até julho daquele ano, que foi o que
aconteceu.
Agentes em conflito
O contrato de
Lucas Lima com o Santos termina no dia 31 de dezembro de 2017. De acordo com as
regras de transferência da Fifa, o jogador já poderá assinar um pré-contrato
com qualquer equipe a partir de agosto. Em março, o meia declarou, em programa
na internet, que ficará no clube em 2018 para manter as chances de disputar a Copa do
Mundo da Rússia. A possibilidade de ampliação do vínculo é pequena, porém.
– Não há prazo, mas ele demonstrou
interesse pelo Santos, pela Seleção – afirmou Edson Khodor.
– Mas aparecendo uma situação que ele
confia e o deixa feliz... Futebol é uma profissão dinâmica. O próximo contrato
é o contrato da vida dele. Temos que tomar cuidado para não prejudicar o atleta
– completou o empresário, cauteloso.
Khodor é o representante de Lucas
Lima, mas não é o único a discutir o futuro do atleta. Desde que o jogador se
tornou cliente da N&N, empresa de consultoria de imagem do pai de Neymar, o
agente Wagner Ribeiro também entrou no circuito. A relação é de atritos entre
os empresários.
– Há quase dois anos ele deixou de
falar com esse cara (Khodor). Eu e o pai do Neymar trabalhamos para que ele
tenha um pré-contrato em julho – disse Ribeiro.
– Nem me fala esse nome (de Wagner
Ribeiro). Ele não faz parte dos contratos, nunca fez. Ele pode até trazer
proposta, representar um clube, mas não negocia pelo Lucas – respondeu Khodor.
Em dezembro de 2015, Santos e Khodor
assinaram um termo em que se reconhecem como únicos representantes de Lucas
Lima. Questionado sobre o andamento das negociações para a renovação com o
atleta ou uma possível transferência, o presidente Modesto Roma Júnior foi
econômico:
– (As conversas) Estão bem. Mas só há
conversa entre Santos e Khodor.


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